O canil onde estamos hospedados tem a capacidade de nos surpreender sempre, mesmo quando julgamos já ter visto tudo. Talvez esta seja uma forma que a Mãe África encontrou de nos devolver alguma humildade ao espírito e de nos proporcionar em cada estadia no Hotel Forum uma oportunidade de crescimento espiritual.
- “Ah julgam que já viram tudo, mindele ignorantes? Pois vou-lhes dar uma lição de humildade extra-programa!...” – sussurrou-nos Mãe África ontem à noite ao ouvido, assim muito ao de leve. Tão ao de leve que não a levámos muito a sério e insistimos em experimentar comer pizza no Hotel Forum. E continuámos a insistir, mesmo depois de vermos os dois sul-africanos da mesa do lado mandarem a pizza para trás, reclamando tanto quando o desconhecimento do português lhes permitia reclamar.
Mais tarde, já sentado onde me sentei para lidar com consequências da dita pizza, encetei diálogo com voz que me falava dentro da cabeça - e que sei ser a voz de África a falar à minha consciência, apesar de o Bruno insistir que ainda estou a delirar com indigestão causada pela pizza.
- Ah Mãe África!... Praxaste os karkamanos com a infernal pizza, e eu compreendo. Mas nós?... Nós somos portugueses... Somos especiais. Somos da raça dos mindele que te amaram como nenhuns outros. Somos descendentes daqueles que verteram sangue, suor e lágrimas tentando lançar a sua raiz nesta terra mágica. Somos do sangue daqueles que pagaram com doenças e até com a vida o direito a sentirem pertencer a essa terra vermelha, para mais tarde verem o seu amor sucumbir a uma doença pior. E mesmo assim praxas-nos com a pizza mais sebosa do mundo, que nos revolta as entranhas e nos faz arrotar a pasta de celulose? É injusto, porra...
- “Vens para cá, mundele, todo vacinado, munido dos teus comprimidos para tudo o que é maleita... Bebes da água engarrafada... Escapas-te ao paludismo, à cólera, à febre amarela. Cuidavas mesmo não haver um preço a pagar por beber a água do Bengo?”
Kulabeka huxi! E faz-se luz: Lavoisier afinal não é mau! Lavoisier, o temível cozinheiro brasileiro do hotel Forum, é apenas um pequeno instrumento dos planos divinos. Nem deve ter consciência disso, mas ele é uma das peças na máquina do destino, com a sua função bem definida nos desígnios do universo: fazer-nos pagar o direito a sentir o pôr-do-Sol na terra vermelha.
